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5 de dezembro de 2018

THE BIRTH OF LANDSCAPE



"Love and noble heart are one thing."

Dante




The girl sees the sea

from within

....................................

is born to say

I walk down a street

call moonlight

holding chrysanthemums

.......................................... ..

the bodies

gathered by water

watering the plants

...........................................

salt woman

swimming

after

water bird

after

flower is


Marcelo Ariel

20 de outubro de 2017

Parte desse silêncio


“ Hoje estão consternados pelo silêncio do mundo naqueles dias. Amanhã farão parte desse silêncio”
Piotr Cywicz, diretor do Museu de Auschwitz

Parte desse silêncio em Ruanda
dissimulado pela prática comum do alheamento
Onde estão as latinhas, ele pergunta
Estão ali, juntamos um pouco de papelão também e umas garrafas vazias lá nos fundos
Parte desse silêncio na Somália
O choro nítido de alguém já morto
Uma vez mais a imagem me olha
O inconcebível
Fumaça saindo de dentro dos corpos
pela boca, pelos olhos
por um instante somente os suicidas vivem
com um motivo
com uma chuva infinita
de bombas chamada
‘ Meu reino não é deste mundo ‘
Parte desse silêncio na Palestina
uma pomba voando
com um buraco de bala na asa
querubins em pedaços
nas ruínas de um berçário
O poema segue
flutuando na avenida
na perspectiva da desaparição
Parte desse silêncio
Na Aldeia do Mato Grosso
A memória não pode alcançar
O infinito que é seu principio
O ossário de raízes e flores
desconhecidas
uma trincheira rasa
no sorriso

do Pajé
o céu cedendo
enquanto o mar sobe
Parte desse silêncio
procurando outros
formando um grande Sol
visível apenas para os mortos

18 de abril de 2017

Poemas inéditos de Tiago D. Oliveira






10 textos de
NO FINAL SÃO OS CONTORNOS DO TEMPO


Tu deseo es que los objetos se mantengan em silêncio
Aníbal Cristobo


um elefante branco

se tudo fosse a fotografia não
havia um pequeno elefante branco
sobre o criado mudo e a carta
não também não era a carta
dentro do segundo parágrafo
um único e fresco borrão
ou um pingo de chuva ou não
uma lágrima isso
uma lágrima era tudo o que tinha
que podia até ser minha mas não
havia algo a mais dentro
daquele momento
tornando como os pingos de chuva
de uma noite inteira se tudo
fosse a fotografia não é
possível separar nada agora
se tudo fosse a fotografia
enquanto esfrego a ponta dos dedos
no pequeno elefante branco
como uma lâmpada mágica


[o que cresce de nós]

A pessoa que mais amo
é feita desse mirante,
dessa época do ano,
do perto desse instante.
Carlito Azevedo

o que cresce de nós
é feito deste movimento da tarde
sobre as nuvens
as cores tornando as dores
impassíveis dentro de mais um suspiro
um fio de melancolia de braços abertos
de nós o que cresce
é o antissilêncio no peito
e se calamos é para entender
todas as vozes
e se calamos é para aceitar
que ainda existem
libertas nas formas de afeto
o que cresce de nós na distância
enquanto escorre a lágrima
do rosto da criança
que exaurimos ou expulsamos
em um pensamento triste


no final são os contornos do tempo

com palavras e as mãos atentas
às linhas dos contornos contornos
que há um momento alguns digamos
que palavras e mãos se tornam iguais
com sombras e marcas iguais até
que ponto uma palavra pode pesar
deixar seus contornos e pesar retas
paralelas sem balanço algum
retas somente retas
palavras mãos atentas ou não
ao peso que acessou às suas curvas
para sentir nas nuances a veia
pulsante nos contornos dos dias contornos
que há um momento tênue momento
em que as palavras são esvaziadas
como as retas servem para encurtar
há desses em que só o silêncio
consegue relaxar as formas devagar
recolocar cada curva em seu desalinho
cada reta em descordo com o chegar
para sentir a brisa pele dos contornos


23.11.2009

há um segundo e meio
indo e vindo
você lendo Rakushisha
diluindo os rompantes flutuantes
no movimento dos olhos
enquanto volto a faixa
trem das cores: balanço
os dois lados da moeda
um segundo e meio
uma vida inteira


V

desprotegidos há tempos
somente estes dez segundos
cinco para lembrar e cinco para esquecer
existe nas entranhas um registro
que insiste em bagunçar
dentro deste pequeno caos individual
que aproxima todas as dores
dez segundos para viver
dividir entre lembrar e esquecer

queria perder alguns cantos

o último assento do lado direito
do elétrico Jerónimos – Cais de Sodré
a fumaça das sardinhas como névoa
o sopro que antecede o metrô
a chuva no miradouro do Adamastor

queria o que cresce nos mínimos



[a sua voz esticada a porta]

a sua voz esticada a porta
do elevador fechando e a palavra
açúcar – não esqueça do açúcar –
entre o 9º e o PG lembro
das ondas e do duplo do mar
daquele que entende diante do poema
que é preciso aprender a ficar submerso
volto para o açúcar e o elevador sacode
abre a porta – bom dia seu zé – será será
um duplo de beleza despercebida
açúcar e o sinal quebrado
os carros abrindo e fechando a luz
e não chove e não há uma folha
solta voando só os prédios percebem
o som da nossa voz sob nós
é preciso aprender a fica submerso
é um poema de Alberto Pucheu
submerso no mar no trânsito
das ondas até que sejas
lançado de volta para a superfície
quando era menino mergulhávamos
no tanque da laje de Duda
um minuto um e trinta
um e cinquenta dois
o ar nunca foi igual:
vivemos para respirar
entre o açúcar a folha
e o poema de Pucheu
caminho em silêncio entre
escrever é ter acesso
é aceitar a diferença que há
no peso dos corpos sobre a terra


[que seja a sua própria vela o poema]

que seja a sua própria vela o poema:
quando o cabo do revólver quebrou
a janela do carro solfejava este verso
depois fiquei na marginal
assombrado com o delírio
do impulso do vento que seja
a sua própria vela o poema:
é a dimensão que tateia o homem
a empurrar uma arma tomar
um carro bater num poste
no dia seguinte não saber
se foi sonho ou vida
o gosto de sangue na boca
e o que se repete pede
pede pele
como um abraço traduz
o amor é mais a parte
que ainda não compreendemos


[a Geni do Chico como um pêndulo]

a Geni do Chico como um pêndulo
a imagem muda para o mar
ela continua como as ondas
que recomeçam sem fim
mas ainda carrega um leve
regalo de beleza crua
sangrando sem perder
a paz repugnada na fome
do mundo há uma Geni
inflamando o mistério
entre generais e gerânios
acho que essa é a melhor
definição deste amor


[depois de recitar sobre o cânion]

depois de recitar sobre o cânion
que há na moldura do espelho
ria sem parar ria
água por água imensidão
que existe em desdenhar
da própria dor colocar
um jarro de flores sobre a mesa
passou o dedo lambido na sobrancelha
ajeitou os calcanhares seu tango
sempre foi a melhor parte
dos dias a melhor
façamos assim – essa voz
uma prosa poética ou
um poema em prosa ou
a chave de casa a mesa
deixamos de agradecer não
havia mais recados na porta da geladeira
o toque acontecia nas mensagens
pelo celular entre um café e outro
foi o que descobrimos um tempo depois
quando Caetano cantou Surucucu Paloma
o uivo machucou uma certeza cega instalada
há tempos é quase nada quando Caetano
soprou a miséria pesou certa
quando o suor quedou em força
estávamos os dois prontos


[a piaçava empurrando]

a piaçava empurrando
os confetes molhados
sobre o azulejo
no movimento dos braços
a alegria de ontem inofensiva
como as bitucas de cigarro

você me disse certa vez
que o amor é reconhecido
como uma voz no escuro

os pés de lá para cá não dançam
perseguem os restos da comemoração
que não importa não chega
o que há de ser comemorado
amanhecido no domingo

eu que nunca quis vender
a razão para o coração
ainda temo a banalização
do amor na sala de estar

depois do lixo reunido
cadeiras e mesas sobrepostas
as janelas e portas fechadas
na noite sempre anterior
a vida também é uma festa
tal como nas pedreiras
o suor e o canto temperam
este fio de sol que rasga o céu
e há dias em que o sorriso existe

enquanto aceitávamos
as curvas das imperfeições
maturávamos o abraço
e o olhar para a casa simples
aos pés de um rio que não cessa
para o que se coloca a sobrar:
que observasse as borboletas
                              borboletas


Tiago D. Oliveira, estudou Letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Em 2014 lançou o livro de poemas, Distraído, pela Editora Pinaúna, no Brasil, o primeiro solo. Em 2016, saiu o Debaixo do Vazio, pela Editora Córrego. Tem poemas publicados em algumas revistas e jornais especializados no Brasil e em Portugal, como também em algumas antologias.



imagem Maess

8 de março de 2016

Dois poemas de Ricardo Rizzo






Telegrama para Fernando Brant

Um carro atravessa o corpo
estacionando no fígado.

Os anos descem as escadas
sem encontrar visita.

Um lago em que percutem
pequenos testes

contém a água do século
e também os peixes.

O caminho que leva ao povo
foi adjudicado à represa.

Existe uma sala auxiliar
e o funcionário o espera.

O fim do milagre significou
apenas o começo.

Há um tênis abandonado
no hectar.

Praças, usinas, sapatarias
arruinam os insetos.

No início, a ideia de espera
era o que ardia.

A licença permite o corte
da madeira pelos ímpios.

O mesmo carro abandona
o fígado, migrante.

O corpo atravessado pela obra
é o mesmo, onde mora.

O que mais atravessa a noite
é a produção, um ritmo.

O índio que o persegue
no mundo físico

e o documento que o descreve
como índio

esperam pelo funcionário
que os escreverá.

A estrada caiu
sobre o maquinista.

O índio em Minas bebe
como em Manaus.

Há inclusive outro minério
mais fino que retiram.

Os peixes que você nomeou
foram modificados

e seus fonemas
submergidos.

Uma sala com abelhas
incendiou-se.

São poucas as anotações
e o funcionário tem sono.

O carro estacionado impacienta-se,
faz reféns.

Você migrou muito nele
com seus amigos.

No calor do azul o domingo
era um trem de escolta.

Todos os meios de transporte
acordam para a vida.

O carro atravessa os muros
entre estados federados.

O céu avança sobre os celulares
como um pneu no inverno.

O avião parece haver parado
sobre o supermercado

e os olhos querem beijá-lo.
As ladeiras atingem o fim

das escadarias protegidas
e o almoço, servido, claudica.

Os que voltam da Itália
acreditam em ginastas.

Uma vida gasta no indivíduo
apenas o mínimo.

As dinastias desejam
menos do que a indústria.

Há sempre quem organize
partidas e organismos.

A iluminação pública reflete
no limo das ruas antigas

aquela sombra compacta
que os corpos já são:

extensão externa da casa
de que são feitos

pátio da casa da carne
onde cães se alimentam

e entre os cães a mãe deles
a cadela-memória

vazada de perguntas
sem pontuação. A avó

inundada pelo planejamento
estudou piano

com Mário de Andrade
aprendeu que madrigal

é uma forma concisa,
meticulosa, uma pausa

na prosa sequencial
das obras, e por isso

um sinal delas, espalhadas
em ossos, pedras, escoras.

Uma concavidade no relevo
um intervalo na dobra.

O carro invadiu o interesse
transportando  o jornalista.

Parado na estação o corpo
mediação que pede socorro

pediu que o levassem
de volta ao outubro

do caderno em que lido
o passado poderia

passar sem ser cortado
pelo vidro da corrosão.

Uma edição do vivido
a partir do que não.

Um carro deita na esquina,
a fumaça o recebe.

O corpo perde a febre
e a importância. Cede.

Na multidão uma península
insiste que a percebam.

O estranho objeto lunar,
depositado, implora.

Por estar imóvel
os peixes o digerem.

O milagre dessa digestão
mantém as águas salinas

como uma mina de carvão
mantém inundada

a saída de dejetos
e o significado extraído.

Alguns caçadores aproximam-se
do urso polar limítrofe.

O milagre que doeu
aciona o bulldozer

para uma última apresentação
ante o vestígio.

O seu gesto de mastigação
convence os mamíferos.

A voz é um deserto que se ouve.
Pedem avisar que termina

mal a narrativa.
O carro, o lago e os peixes

não encontram saída.
Afogam-se mineiros

índios e fonemas,
funcionários e usinas.

A sorte, os rios, o cidadão
caíram sobre a península.

Varrem um pátio aborrecido
com o silêncio dos digeridos.

Mas os amigos passam bem,
venceram todos os imprevistos.

Um milagre, dizem. Um espelho
na contracapa de todos os discos.




Travesti negra responde

ao inquérito, à maçã
à flor e à náusea
à pergunta sobre o implante
ao vidente, ao búzio
à camaradagem sutil
ao chamado para viagem
à intimação para testemunhar
ao caos da gaveta de meias
a questões de múltipla escolha
à peroração do dentista
a quem interessar, sobre seu filho
ao guia turístico
a uma entrevista no final da página
a algo que a incomoda (pode ser o vento)
se pedir com carinho
à guerrilha urbana
ao assovio de dentro do carro
aos xingamentos dos garotos sem maldade
ao afã de entregar-se ao dolce far niente
à carta que lhe enviara a tia
ao terreiro, à benzeção
ao telefonema da assistente social
a alguém que a reconhece na fila
ao despertador chinês
ao insulto do cobrador
ao pássaro sobre a lagoa
ao papel timbrado
ao frio da cidade de praia em julho
ao pedreiro
à oferta de um cigarro de maconha
ao apelo do rapaz para gozar em sua boca
ao pedido de ajuda do sobrinho que estuda
à gravação distorcida
à câmera de segurança
ao questionário da universidade
à encenação de Tio Vania
ao email da moça da Fundação Getúlio Vargas
ao convite para almoço no shopping
à pergunta do segurança tímido
à cera quente
ao tipo penal
à pesquisa online sobre a qualidade do atendimento
ao ser e ao tempo
mentalmente ao bilhete na caixinha com fezes
ao vagão feminino
ao silêncio que vasculha os cantos (a sua procura)
às latas viradas pelo skinhead
à sensação de enjôo
ao sorriso do anestesista
ao aceno que a dispensa de atravessar a rua
ao piscar de farol alto
à agulha que atravessa a coluna vertebral
à enquete do inferninho
ao medo de perder
ao spray de pimenta
à certeza de que o pau dele está duro
à canção que prefere em outro disco
à citação por edital
ao teste, à pesagem, ao desfile
ao mesmo delegado do mês passado
às boas intenções
ao estagiário
à vontade de mijar
ao rugir das tempestades
ao interfone apesar de cansada
à manhã que parece impedir seus olhos de se abrirem
à ressaca na Avenida Atlântica
ao codinome no sábado
à pesquisa de boca de urna
ao eco do Egito
ao mal-entendido
ao rapaz do Instituto Médico-Legal
à divisão do trabalho
à recepcionista do Miguel Couto
ao fichário do despachante
aos gritos e aos sussurros
à professora de inglês
ao cartão de Natal de Sueli (que está na Itália)
ao som do objeto passando perto
ao Eduardo Coutinho
ao choro ao lado, no outro quarto
ao menino do gás
que pede um beijo
(a camisa puída, sem jeito)
para experimentar
ao pedido de dinheiro emprestado
à inspeção sanitária
ao recado na secretária eletrônica
à rasteira, joelhada, tapa e quetais
à pergunta se está ouvindo bem
à pergunta se está bem
à desorientação ao redor
à instrução de se acalmar
à repetição tediosa da pergunta
a alguém que quer que morra
ao estuário que invade a memória
à interpelação do porteiro
à umidade entre os seios
ao mangue, ao cristal, à buzina
ao matagal, ao galpão, ao ensaio
ao superior, ao diretor, à assistente
à maquiadora, ao figurinista
à psicóloga, à moça da limpeza
à vendedora sobre o tamanho
à súplica do superego
ao caixa do supermercado
ao organizador do evento
ao anti-coagulante
ao erro de pronúncia
ao irmão que viajou
à mãe sobre o projeto
que não sabe quem foi
ao pedinte achando graça
que não lembra direito
ao GPS do táxi (em pensamento)
que prefere dormir de bruços
ao apelo do prefeito
ao seu nome de guerra
ao cheiro, ao desespero
ao espelho do banheiro
ao relógio de pulso
ao dinheiro, ao uso dele,
à noite aguda do interesse
educadamente
à deixa no roteiro
ao endereço, ao preço
ao anúncio de emprego
como um morcego antigo
ao ruído que reflete
a parede das coisas
a superfície, o canivete,
o abrigo.




Ricardo Rizzo nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1981. Publicou Cavalo marinho e outros poemas (2002); Conforme a música (2005), País em branco (2007) e Estado de despejo (2014). Colaborou com poemas, ensaio e tradução nas revistas Cacto (2003), Rodapé (2004), Rattapallax (2004) e Poesia Sempre (2006). Recebeu o Prêmio "Cidade Belo Horizonte" na categoria poesia, em 2004. Editor da revista de literatura Jandira (2004-2005). Mestre em Ciência Política e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, ingressou na carreira diplomática em 2006.




imagem
Luis Felipe Noé