8 de março de 2016

Dois poemas de Ricardo Rizzo






Telegrama para Fernando Brant

Um carro atravessa o corpo
estacionando no fígado.

Os anos descem as escadas
sem encontrar visita.

Um lago em que percutem
pequenos testes

contém a água do século
e também os peixes.

O caminho que leva ao povo
foi adjudicado à represa.

Existe uma sala auxiliar
e o funcionário o espera.

O fim do milagre significou
apenas o começo.

Há um tênis abandonado
no hectar.

Praças, usinas, sapatarias
arruinam os insetos.

No início, a ideia de espera
era o que ardia.

A licença permite o corte
da madeira pelos ímpios.

O mesmo carro abandona
o fígado, migrante.

O corpo atravessado pela obra
é o mesmo, onde mora.

O que mais atravessa a noite
é a produção, um ritmo.

O índio que o persegue
no mundo físico

e o documento que o descreve
como índio

esperam pelo funcionário
que os escreverá.

A estrada caiu
sobre o maquinista.

O índio em Minas bebe
como em Manaus.

Há inclusive outro minério
mais fino que retiram.

Os peixes que você nomeou
foram modificados

e seus fonemas
submergidos.

Uma sala com abelhas
incendiou-se.

São poucas as anotações
e o funcionário tem sono.

O carro estacionado impacienta-se,
faz reféns.

Você migrou muito nele
com seus amigos.

No calor do azul o domingo
era um trem de escolta.

Todos os meios de transporte
acordam para a vida.

O carro atravessa os muros
entre estados federados.

O céu avança sobre os celulares
como um pneu no inverno.

O avião parece haver parado
sobre o supermercado

e os olhos querem beijá-lo.
As ladeiras atingem o fim

das escadarias protegidas
e o almoço, servido, claudica.

Os que voltam da Itália
acreditam em ginastas.

Uma vida gasta no indivíduo
apenas o mínimo.

As dinastias desejam
menos do que a indústria.

Há sempre quem organize
partidas e organismos.

A iluminação pública reflete
no limo das ruas antigas

aquela sombra compacta
que os corpos já são:

extensão externa da casa
de que são feitos

pátio da casa da carne
onde cães se alimentam

e entre os cães a mãe deles
a cadela-memória

vazada de perguntas
sem pontuação. A avó

inundada pelo planejamento
estudou piano

com Mário de Andrade
aprendeu que madrigal

é uma forma concisa,
meticulosa, uma pausa

na prosa sequencial
das obras, e por isso

um sinal delas, espalhadas
em ossos, pedras, escoras.

Uma concavidade no relevo
um intervalo na dobra.

O carro invadiu o interesse
transportando  o jornalista.

Parado na estação o corpo
mediação que pede socorro

pediu que o levassem
de volta ao outubro

do caderno em que lido
o passado poderia

passar sem ser cortado
pelo vidro da corrosão.

Uma edição do vivido
a partir do que não.

Um carro deita na esquina,
a fumaça o recebe.

O corpo perde a febre
e a importância. Cede.

Na multidão uma península
insiste que a percebam.

O estranho objeto lunar,
depositado, implora.

Por estar imóvel
os peixes o digerem.

O milagre dessa digestão
mantém as águas salinas

como uma mina de carvão
mantém inundada

a saída de dejetos
e o significado extraído.

Alguns caçadores aproximam-se
do urso polar limítrofe.

O milagre que doeu
aciona o bulldozer

para uma última apresentação
ante o vestígio.

O seu gesto de mastigação
convence os mamíferos.

A voz é um deserto que se ouve.
Pedem avisar que termina

mal a narrativa.
O carro, o lago e os peixes

não encontram saída.
Afogam-se mineiros

índios e fonemas,
funcionários e usinas.

A sorte, os rios, o cidadão
caíram sobre a península.

Varrem um pátio aborrecido
com o silêncio dos digeridos.

Mas os amigos passam bem,
venceram todos os imprevistos.

Um milagre, dizem. Um espelho
na contracapa de todos os discos.




Travesti negra responde

ao inquérito, à maçã
à flor e à náusea
à pergunta sobre o implante
ao vidente, ao búzio
à camaradagem sutil
ao chamado para viagem
à intimação para testemunhar
ao caos da gaveta de meias
a questões de múltipla escolha
à peroração do dentista
a quem interessar, sobre seu filho
ao guia turístico
a uma entrevista no final da página
a algo que a incomoda (pode ser o vento)
se pedir com carinho
à guerrilha urbana
ao assovio de dentro do carro
aos xingamentos dos garotos sem maldade
ao afã de entregar-se ao dolce far niente
à carta que lhe enviara a tia
ao terreiro, à benzeção
ao telefonema da assistente social
a alguém que a reconhece na fila
ao despertador chinês
ao insulto do cobrador
ao pássaro sobre a lagoa
ao papel timbrado
ao frio da cidade de praia em julho
ao pedreiro
à oferta de um cigarro de maconha
ao apelo do rapaz para gozar em sua boca
ao pedido de ajuda do sobrinho que estuda
à gravação distorcida
à câmera de segurança
ao questionário da universidade
à encenação de Tio Vania
ao email da moça da Fundação Getúlio Vargas
ao convite para almoço no shopping
à pergunta do segurança tímido
à cera quente
ao tipo penal
à pesquisa online sobre a qualidade do atendimento
ao ser e ao tempo
mentalmente ao bilhete na caixinha com fezes
ao vagão feminino
ao silêncio que vasculha os cantos (a sua procura)
às latas viradas pelo skinhead
à sensação de enjôo
ao sorriso do anestesista
ao aceno que a dispensa de atravessar a rua
ao piscar de farol alto
à agulha que atravessa a coluna vertebral
à enquete do inferninho
ao medo de perder
ao spray de pimenta
à certeza de que o pau dele está duro
à canção que prefere em outro disco
à citação por edital
ao teste, à pesagem, ao desfile
ao mesmo delegado do mês passado
às boas intenções
ao estagiário
à vontade de mijar
ao rugir das tempestades
ao interfone apesar de cansada
à manhã que parece impedir seus olhos de se abrirem
à ressaca na Avenida Atlântica
ao codinome no sábado
à pesquisa de boca de urna
ao eco do Egito
ao mal-entendido
ao rapaz do Instituto Médico-Legal
à divisão do trabalho
à recepcionista do Miguel Couto
ao fichário do despachante
aos gritos e aos sussurros
à professora de inglês
ao cartão de Natal de Sueli (que está na Itália)
ao som do objeto passando perto
ao Eduardo Coutinho
ao choro ao lado, no outro quarto
ao menino do gás
que pede um beijo
(a camisa puída, sem jeito)
para experimentar
ao pedido de dinheiro emprestado
à inspeção sanitária
ao recado na secretária eletrônica
à rasteira, joelhada, tapa e quetais
à pergunta se está ouvindo bem
à pergunta se está bem
à desorientação ao redor
à instrução de se acalmar
à repetição tediosa da pergunta
a alguém que quer que morra
ao estuário que invade a memória
à interpelação do porteiro
à umidade entre os seios
ao mangue, ao cristal, à buzina
ao matagal, ao galpão, ao ensaio
ao superior, ao diretor, à assistente
à maquiadora, ao figurinista
à psicóloga, à moça da limpeza
à vendedora sobre o tamanho
à súplica do superego
ao caixa do supermercado
ao organizador do evento
ao anti-coagulante
ao erro de pronúncia
ao irmão que viajou
à mãe sobre o projeto
que não sabe quem foi
ao pedinte achando graça
que não lembra direito
ao GPS do táxi (em pensamento)
que prefere dormir de bruços
ao apelo do prefeito
ao seu nome de guerra
ao cheiro, ao desespero
ao espelho do banheiro
ao relógio de pulso
ao dinheiro, ao uso dele,
à noite aguda do interesse
educadamente
à deixa no roteiro
ao endereço, ao preço
ao anúncio de emprego
como um morcego antigo
ao ruído que reflete
a parede das coisas
a superfície, o canivete,
o abrigo.




Ricardo Rizzo nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1981. Publicou Cavalo marinho e outros poemas (2002); Conforme a música (2005), País em branco (2007) e Estado de despejo (2014). Colaborou com poemas, ensaio e tradução nas revistas Cacto (2003), Rodapé (2004), Rattapallax (2004) e Poesia Sempre (2006). Recebeu o Prêmio "Cidade Belo Horizonte" na categoria poesia, em 2004. Editor da revista de literatura Jandira (2004-2005). Mestre em Ciência Política e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, ingressou na carreira diplomática em 2006.




imagem
Luis Felipe Noé


6 de janeiro de 2016

Gilberto Mendes / 1922 -2015



 O legado de Gilberto Mendes anda está por ser avaliado, seus trabalhos criaram um campo híbrido onde se entrelaçavam literatura, cinema, teatro e música, de um modo insuspeito ele realizou um dos sonhos de Richard Wagner, a criação de uma obra total , um livro de correspondências entre as artes e a interioridade.  Nascido no mesmo ano de Jack kerouac e da Semana de Arte Moderna, ele atravessou o século como um cometa suave, como uma ilha flutuante de leveza e densidade singulares. Certa vez , me contou de seu encontro com Tom Jobim, estava no Rio ao lado do edifício onde morava o maestro carioca e decidiu bater em seu apartamento, Tom atendeu e o recebeu muito bem,  a Graça  no sentido maior da palavra , de uma contemplação da beleza e da gratuidade dela, se torna presente, se somos capazes de imaginar o que estes dois músicos geniais conversaram nesta tarde que hoje alcança o infinito, onde dois Brasis profundos se tocaram. Tomo a liberdade de reproduzir abaixo um grande fragmento de um artigo brilhante escrito pelo Gilberto, que sintetiza bem seus ideais ético/estéticos: 

Marcelo Ariel


 " MÚSICA MODERNA BRASILEIRA E SUAS IMPLICAÇÕES DE ESQUERDA

Por Gilberto Mendes
Este artigo foi encomendado pela revista Musik und Gesellschaft da antiga RDA, não tendo sido publicado após a reunificação alemã. Daí seu caráter informativo: tendo em vista um público desconhecedor da música brasileira. Sob outro especto, abre um leque da participação marcante das esquerdas na música do Brasil.
A MÚSICA NOVA DA POLIFONIA DE NOTRE DAME AO SÉCULO XXI
O FMN já possui certo distanciamento crítico para poder se auto-avaliar desde sua nova proposta, em 2012, quando o SESC-SP em conjunto com a USP de Ribeirão Preto passou a sediá-lo, com a inclusão, na programação, da música nova de todos os tempos – desde a invenção da própria música, tal como a entendemos, pelas mãos dos gregos antigos.
Esta mudança de rumo talvez tenha suscitado alguma querela. Perguntou-se, afinal, por que estaria presente a música do passado – como Machaut, Gesualdo, Bach ou Beethoven – junto às composições vanguardistas das velhas linhas de Darmstadt, ao lado de composições minimalistas, eletroacústicas, espectrais ou texturais, entre os gestos característicos da improvisação livre e os conglomerados poli-estilísticos pós-vanguarda? Será que em algum lugar se perdeu a essência experimental do FMN? Com o novo sucesso de público, desde 2012, temos de fato a negação do experimentalismo? Muito pelo contrário.
Inicialmente, há que se compreender as diferenças entre experimentalismo e vanguarda. Para Umberto Eco, “toda verdadeira invenção artística é experimental em todos os tempos e lugares. Neste sentido, a música polifônica era experimental em relação ao cantochão. Beethoven era experimental em relação a Haydn, e assim sucessivamente”. Stravinsky, Bartók e Villa-Lobos foram altamente experimentais e inventivos em seus trabalhos com as músicas populares já urbanas, desde Brahms com suas danças húngaras e Chopin com suas mazurcas. Ainda para Umberto Eco, “entre os séculos XII e XIII, os compositores polifonistas de Notre-Dame foram experimentais quando adotaram o intervalo de terça pela primeira vez para que se tornasse aceito pela sensibilidade musical corrente”. Umberto Eco conclui que, ao contrário das “lentes deformantes de uma sabedoria tradicional e autoritária, faz parte do experimentalismo a constante transformação do método, falando com simplicidade”. Ou seja, o experimentalismo é uma postura incansável de mudança e auto-superação. Neste mesmo sentido, já distante da rigidez da velha vanguarda e aberto à música nova de todos os tempos, o FMN permanece experimental, porque entende que nossos tempos são dos sistemas abertos, bem como dos diálogos entre os sistemas.
Não somos nós, mas sim Charles Baudelaire quem já há muito percebia a armadilha na tradição das metáforas militares, como no caso de se pensar numa vanguarda (conceito de origem evidentemente militar) no contexto artístico. Baudelaire chamou a atenção para “os poetas de combate”, para “os literatos de vanguarda”, cujos “hábitos de metáforas militares denotam espíritos não militantes, mas feitos para a disciplina, isto é, para o conformismo, espíritos nascidos domésticos”. Seria uma visão profética de Baudelaire? O que antes se pensava como inovação e desprendimento não pode agora se transformar numa doutrina de corporação, cuja assimilação, obediência e fidelidade diante da patrulha ideológica adquirem mesmo os rigores de uma hierarquia militar? Seria o caráter evidente de exclusão em nome da uniformidade. Nossa proposta, desde 2012, ao contrário, contempla a pluralidade, o não-padrão, e, acima de tudo, a inquietude filosófica.
Schönberg, um dos gurus da primeira vanguarda pós-guerra, afirmou “ter orgulho em escolher uma má estética para os alunos de composição, se em compensação der a eles um bom aprendizado de artesanato”. Esta ideologia gerou alguns resultados desastrosos em Darmstadt e continua gerando em seus últimos epígonos ainda hoje – não obstante várias de suas importantes contribuições históricas. Está claro que houve certa precariedade filosófica na geração dos compositores da vanguarda autoproclamada. Permaneceram na superfície de uma autoidolatria tanto excêntrica quanto excludente. Assim, esqueceram-se do mundo. Não é por menos que também o mundo se esqueceu deles e nem cabe aqui lembrá-los mais enquanto único caminho para a música nova. Ao contrário, vamos nos lembrar agora também daqueles que eles tentaram esquecer. " 

12 de novembro de 2015

“Sistema de controle de pessoas”, inédito de Daniela Lima




[Imagem de Lorenna Lannes]


“Desde que te conheci, não me sinto mais normal”.
“Pense na palavra ‘amor’”.
“Isso não importa nada para essa história”.
– Jean-Luc Godard


SISTEMA DE CONTROLE DE PESSOAS: – Normalmente perguntamos se você concorda com tudo aquilo que está sendo dito. Logicamente esta é uma forma de saber se você está plenamente adaptado. Racionalmente você deve dizer que concorda com tudo aquilo que está sendo dito, porque tudo aquilo que está sendo dito é normal, lógico e racional.
– Mas o que está sendo dito?
– Há um interesse do SISTEMA DE CONTROLE DE PESSOAS de proteger você das perigosas influências vindas do EXTERIOR.
– Mas o que é o EXTERIOR?
– Criamos fronteiras que dividem a nossa sociedade em dois espaços: INTERIOR e EXTERIOR. O INTERIOR é o espaço daqueles que se adaptaram às normas e o EXTERIOR é o espaço daqueles que não se adaptaram às normas.
– O INTERIOR define a norma e o EXTERIOR seria tudo aquilo que não se adapta à norma?
– Logicamente.
– Portanto, o SISTEMA DE CONTROLE DE PESSOAS quer me proteger da influência de pessoas do EXTERIOR?
– Normalmente perguntamos se você aceita ou não a proteção do SISTEMA DE CONTROLE DE PESSOAS. Racionalmente você deve aceitar. Logicamente se não aceitar, estará fora daquilo que se espera de alguém normal.
– Ser normal é estar plenamente adaptado?
– O SISTEMA DE CONTROLE DE SIGNIFICADOS determina que ser normal é estar adaptado. Todos aqueles que estão plenamente adaptados aceitam proteção.
– E aqueles que não aceitam?
– Logicamente, aqueles que não aceitam proteção precisam ser protegidos de si mesmos. Normalmente, também protegemos aqueles que precisam ser protegidos de si mesmos dos outros.
– Como?
– Isso se dá por meio de isolamento e exclusão.
– Mas se existe mais de um excluído, não é mais possível isolá-los uns dos outros.
– Normalmente chamamos esses grupos excluídos de EXTERIORES.
– Existe uma guerra entre EXTERIORES e INTERIORES?
– O SISTEMA DE CONTROLE DE SIGNIFICADO chama as diversas fronteiras entre INTERIOR e EXTERIOR de paz.
– O SISTEMA DE CONTROLE DE SIGNIFICADO chama a violência sistêmica contra os EXTERIORES de paz?
– O SISTEMA DE CONTROLE DE SIGNIFICADO não reconhece a palavra violência.
– E as palavras dominação e exploração?
– Essas palavras mudaram de significado: chamamos dominação de autonomia e exploração de liberdade.
– Mudar o significado das palavras muda a realidade material?
– O SISTEMA DE CONTROLE DE AFETOS demonstra que para ser feliz não é necessário mudar a realidade material, mas atribuir novos significados àquilo que trazia dor.
– Engraçado que computadores saibam tanto sobre dor e controle.
– Computadores são programados por pessoas.


Daniela Lima é escritora e ativista. Autora de Anatomia (2012), Sem Importância Coletiva (2014) e Sem Corpo Próprio (2015 – em andamento). Teve contos traduzidos para a revista The Buenos Aires Review (2013) e foi finalista do prêmio literário Exercícios Urbanos (2008) na categoria contos. Colaborou para diversas revistas e sites, entre eles Blog do Instituto Moreira Salles, Carta Capital, Margem Esquerda, Territórios Transversais e Pesquisa Fapesp. É colunista do Blog da Boitempo, comentarista da Rádio Manchete, biógrafa da escritora Maura Lopes Cançado e fundadora do coletivo feminista Jandira (2014).



8 de outubro de 2015

Um livro essencial para a compreensão do nosso tempo



Por Marcelo Ariel

Farei uma anti-resenha , me interessa mais apontar para as ressonâncias que algumas das idéias contidas no livro criaram em minha mente. Me refiro ao livro  ' Internetismo-A internet dando origem a um novo sistema politico ' ( Quartier Latin, 2015 ) de Marcos Peixoto,  o autor analisa a rede mundial de computadores usando elementos analíticos retirados  da dimensão teórica da dialética marxista e chega a conclusões a meu ver surpreendentes, a principal delas é a de que a internet  irá substituir o Estado como o conhecemos hoje porque ela desenha uma noosfera,  criando uma sinergia em rede capaz de  provocar mutações absolutas no capitalismo constituindo assim uma revolução de fato, similar a do aparecimento do feudalismo, a internet segundo o autor  cria um novo tipo de paradigma para o capitalismo , porque  se baseia no ' bem imaterial' que não pode constituir propriedade de indivíduos ou de empresas ou Estados, como ressalto acima ela se torna a materialização de uma noosfera que por sua  característica primordial é incontrolável, embora possa ser cartografada. ' Internetismo- A internet dando origem a um novo sistema político ' é  um dos ensaios mais instigantes que li nos últimos dez anos, uma pequena pérola ensaística a ser descoberta. A edição é primorosa com um límpido e inventivo projeto gráfico de Júlia Rocha e Giselle Tonelli e o livro é bilíngue. Para mim, o autor acerta em cheio e ilumina um pouco uma zona de névoa que cresce cada vez mais, seu ensaio aponta para a  questão essencial do nosso tempo : Para onde vamos? É esta a  questão que este livro acende no horizonte da agoridade com uma grande dose de lucidez.


7 de agosto de 2015

Jurema Paes # Nome # Nume # Recado das Sertanias ou algumas reflexões sobre a foto de Evandro Teixeira e o figurino de Erika Ikezili





No primeiro momento o que vemos na foto é a evocação de uma imanência, de uma dimensão do imanente onde a figura se torna metáfora de uma  expansão até  centros de sinergia que  operam uma osmose  com o Nume evocado pelos cactos, falo em Nume e recordo de uma passagem bíblica do Evangelho Segundo S. Marcos : "8. 24 E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam." . O imaginário que se comunica silenciosamente com a intuição daimônica me permite também expandir esta frase para um campo diferente do campo unificador do Evangelho,  onde   " vejo a figura humana como um poema que se desloca " , no caso para estes cactus, O Sertão é um topos genesíaco por excelência, o que é comunicado pelo pensamento esboçado também em seu curso e força de silêncio no olhar de Jurema Paes.  O figurino sinérgico de Erika dialoga com as taras tibetanas, outras figuras do Nume presentes , uma cisão Ocidente/oriente é  minuciosamente costurada aqui, no corpo de Jurema, a metáfora mais explicita aqui é de uma mestiçagem entre a orquídea e o girassol, duas flores que se conectam ao lugar interior /exterior chamado Sertão. A sabedoria do fotógrafo está a meu ver no deslocamento de um dentro para um fora múltiplo,  a profunda inteligência da figurinista , profunda no sentido da intuição foi criar um ponto de convergência e emponderamento do corpo como signo da diferença, mas de uma diferença dialógica. O gesto de Jurema e aqui entra o papel do fotógrafo como enunciador de uma demiúrgia, é um gesto muito comum nas figuras de epopeia e nas artes marciais,  no wu shu, estilo de tai-chi , é um gesto de preparação para a chegada da energia,  que se dá dentro do wu wei, dentro do vazio, que é como todos sabem a condição ôntica do início de algo, de uma coisa, de mundos, o vazio é a força  que chama , evoca para a criação,  esta foto acontece no limiar , na fronteira geontologica entre o vazio criador e a iminência de algo que ainda não manifestou plenamente os sinais nítidos que nos possibilitariam discernir o que é que está vindo, não se trata porém de um espera pela energia messiânica,  base da falida constituição do mundo como polaridade ocidental/oriental ou seja em nossa limitada visão dicotômica, mas certamente é o anuncio sutilíssimo de uma energia que vem do âmago da terra, como um recado do Nume para o Nome.

Marcelo Ariel

6 de agosto de 2015

Poemas recentes de Sergio Mello




[Imagem de Rachel Goodyear]


Breve ensaio acerca do formato da cabeça de Steve McQueen

1) intro

the king of cool exagera no álcool
e abandona cerimônia em sua homenagem
caminhando com os nós dos dedos
um primata
na lapela a alça do caixão de Bruce Lee

2) horizonte lunar

cérebro gradeado pelo tórax
no capacete um coração em pulsações marinhas
pela janela de um reformatório na Califórnia
a lua na funilaria

3) o chapéu da catedral

trigo revolto pela música
dos pegas de Bonnevilles 1960
ponto da praia em que finais de ondas
distraem os pés enquanto a areia os suga
só então o desequilíbrio é mencionado
o princípio do corpo descoberto na nuca
como o que mal trazido à vida
é posto contra a luz

4) Paris-Dakar

publicar a mais fiel biografia de um marinheiro
sua cama amarrotada
promover visitas monitoradas
a cada lombada de ar e vinco
o orgulho com que sobreviventes
a quedas de raios exibem suas vestes
chamuscadas

5) o azul específico de todas as coisas

barrado no inferno
e tarde demais pra pegar o paraíso aberto
diz o dublê sob a fuselagem
e o dia amanhece
no azul de mil caçadas solitárias

6) ao sul de um quintal qualquer/Paris-Dakar (cont.)

a beleza de um deserto recauchutado
com a lona que envolve plantas dos pés
o tempo parado para Sam Peckinpah diante
da profecia de rachaduras que cedem não às tentativas
mas aos erros

7) moda

charme
o anúncio da flor delinquente
acesa sobre um defeito físico
antes que o reparem
embora o tempo já não seja um ponto em questão

8) túneis de melodia e mentira

dúvida outonal e semiaberta
fornos alimentados por trampolins e estalos hippies
um tremor de terra nasce na espinha de Faye Dunaway
e jamais será contido

9) amianto

o ator cínico e sujo
por não resistir à purificação
agora dorme


Manhã

Rimbaud voltando pra casa
com uma Síndrome de Estocolmo
adquirida num banheiro público
Piva observando garotinhos a caminho da aula
como uma aranha cujo veneno esfriou pra sempre
Whitman barbado e virgem
febril numa cabana
Jack Spicer bêbado e paralisado feito a lua
Carver vestindo o seu único terno
pra substituir o extintor do carro
mas antes cospe um krill na boca de sua esposa
Sylvia Plath cobrindo a cabeça com uma meia-calça fumê
porque seus óculos escuros caíram no lago
e sua boneca vodu quer passear no jardim
Bukowski sentado à beira da cama
como Bill Murray no cartaz de Lost in Translation
Emily Dickinson pensando num sepultamento
com raspas de chocolate e vagalumes
Corso olhando pro Sucrilhos
preparado com o óleo do cabelo de Ginsberg
Frank O’Hara descolorindo os pelinhos das pernas
pra exibi-las no MoMA
Haroldo de Campos abrindo a porta do banheiro
e gritando à sua mãe já acabei
rompe o silêncio no céu dos poetas


Tennessee Williams em uma de suas crises nervosas

levo pra me levantar da cama
o tempo que se leva
pra se recuperar de um luto

meus ossos de PVC
e seus refrãos devidamente encomendados
a nórdicos disc-jóqueis
o quase jazz de copos de vidro
chocando-se
delicadamente
contra mesas também de vidro

levo pra me levantar do chão
o tempo que se leva
pra voltar atrás

e com a língua empapada de terríveis domingos
esse Paraguai na minha cabeça
saio pra me drogar e fazer sexo nas docas


Meditação

andar atrás de velhos lentos
não ultrapassá-los


Hemingway

meu avô me falando da tarde em que parou um touro
com uma bíblia
sem que os chifres perfurassem a capa negra
e de um homem
no exército
que de tanto temer que descobrissem sua homossexualidade
a cada manhã sua voz se tornava mais aguda

meu avô chorando de dor
ao tentar massagear o trecho da sua perna que havia ido
pro lixo
meu avô sorrindo ao lado de um par de muletas de segunda mão
e me apontando uma prótese de plástico
como se fosse um Westley Richards cano duplo

e depois havia as terríveis noites
até que sua mão
pastoral
pousava sobre minha cabeça
a um dialeto ventoso e de vogais nulas
por anos de alcoolismo

aos meus olhos fechados Deus sempre foi um índio
até ontem
quando sonhei que encontrava meu avô
e dizia você não devia estar aí parado na calçada
porque nós te enterramos

e sorrindo ele refutava não filho
foi exatamente o contrário


Hotel

máscara
de louça
à maçaneta
do lado
socialista
de um murro

salina bengala
de não se ir
pra longe

raio cercando
em lentos giros
blocos de ora
brancas
ora azuis
esperas


Desjejum

acordo notando que está frio
como um filme do Wim Wenders
coloco umas salsichas pra ferver
engulo uma hóstia
que não passa de um sabonete gasto
e da janela
miro a cabeça de um chinês


Sergio Mello nasceu em São Paulo, em 1977. É autor de No Banheiro um Espelho Trincado (Ciência do Acidente, 2004) e Inimigo em Testamento (Soul Kitchen Books, 2013). Além de poeta, é roteirista e dramaturgo. Em 2010 a Imprensa Oficial publicou um coletânea de suas peças de teatro.



27 de julho de 2015

Do Diário Ontológico III




Para Juliana Frank e Melissa França


Quando nos tornamos ninguém e desejamos exatamente a lembrança do agora onde não possuímos nada e somos possuídos pelo êxtase frágil ' da respiração ' , a vida se materializa como um incessante e lento nascer do Sol do qual não veremos o apogeu

O processo de 'tornar-se ninguém depende da capacidade de lembrança do agora ou de um elogio que precisa ser dirigido para a gratuidade de uma alegria desertamente distraída

Um pensamento que é emanado diretamente da experiência do esquecimento do próprio rosto, do abandono dos espellhos, medusas fracas demais para iluminar nossa ausência,

Este dificil e raro pensamento seria capaz de criar uma tridimensionalidade, um terceiro ser menos viciado em esquemas e capaz de mergulhos incessantes no silêncio fundador de um adensamento da memória deste cristal de gelo dentro da nuvem do não saber




Marcelo Ariel









19 de julho de 2015

Poemas de Orlando Lopes



[Imagem de Hiroshi Sugimoto]




o ato de desenhar
idéias assemelha-se
por vezes
a um ritual de caça

                        uma palavra
                        (ou uma manada
delas)

vaga nas
planícies
de uma
fazenda de ar

(e nós
            agri (doces) cultores
fazendeiros do ar

sedentários (bárbaros)
admiradores da alma

sentimos a
fome ancestral
da palavra nova)

(: palavra
bicho ingênuo (áporo)
que deus faz brotar
(sacro ofício)
da boca pra fora)

:

                        devemos nos acercar
                        da palavra (daquela
                        pela qual se guia
                        a manada) mas
                        como é difícil distingui-la
                        entre tantas peles
                        de lobos e cordeiros

                        somente é possível
                        aproximar-se
                        cercando-se de cuidados

                        é preciso fingir
                        (a) hora que ela é comum
                        (a) hora que ela é sagrada
                         — entre um ponto e
outro
tentar descobrir
de que sub instância
é feito o seu nada)

chega mesmo a hora
em que é preciso dar
um bote
na palavra (o fazendeiro
sibil-vacilante
                        à espreita)


            capturá-la
            de uma só vez
            numa única bocada
            (caçador macunaímico
            : chega uma hora em
            que não pode ter escrúpulos
                        nem
            nenhuma espécie de caráter)

cada poema
guarda as palavras
caçadas (imoladas
despeladas destrinchadas
esquartejadas : deixadas

prontas para serem saboreadas) de uma maneira
diversa
            (a caça é espreitosa
            e o poema — o caçador conhece
            cada recanto de sua fazenda de ar — é
            oportunista (inclusive maldoso
            e perverso : especialmente aquele que é belo)


                                    (há (é claro) poemas fotossintéticos

                                    canibais respeitosos

                                                há mesmo
                                                poemas tão miméticos
que não perdem de vista
as verdades eternas

: densas estrelas anãs
recontam infinitamente
                                                a glória de ser
a certeza dedicada de cada sol
                                                e sua equidistância (pura errância)

                                    há poemas tão pequenos
                                    (bactérias etéreas) e epopéias
                                    gidantescas — memórias de elefantes
                                    cantos de mil baleias)

            : serpentina eterna
            voz de víbora (sedentário caçador
estendendo sua rotina) bem-vinda
às mil bocas indistintas
de nosso inferno


*


PROMETEU (MODERNÉRRIMO) NO CARNAVAL

I

uma vida
cada vida
toda vida

tudo o que
vive

(: os silêncios
que põe
pra fora

e ninguém
ouve
ninguém
vê)

e todo mundo
finge
que não sabe)

os silêncios
da vida de Freud
os silêncios
da vida de Nietzsche

(o silêncio ruidoso
da mesa (cheia)
ao lado
: o silêncio
que não precisa
de espaço)


II

cansado
Prometeu?
nem vem
meu nego

que agora
não é hora
pra arrego

dê
seu berro

a liberdade
vem no grito
aflito

de quem nunca
antes
se divertiu (quase
toda a humanidade
e seu estado
fabro-fibro : febril)

ah
você ainda
se acha
vil?

mas nem és
metal

nem és
venal

(tão ocupado
estavas tu
contigo
que a ninguém
mais

fizeste mal)

intencionalmente

: os acasos
Prometeu

são o que
realmente
fodem a vida
da gente)

pule
pule
pule

Prometeu

um dia
a festa acaba

um dia
você
não será
mais
capaz
de nada

(: por aí
vão dizer
que até
o (a)teu (do teu)
fígado
envelheceu)


*


SILENCIOSA

a bola
rola

chovem
nuvens
artificiais
:
cada ser
humano
ab sol(u)to

em suas
próprias
espirais


*


quando o poeta retorna
de algum longo passeio
por suas vastas fazendas
                                   planícies
                        seus vastos domínios
seus vastos domínios
                                               de ar

precisa firmar bem os pés
no chão:
            corre muito
            o risco de se desequilibrar
            (corre muito o risco
            de ter mágoas demais
            a desafogar (desencantado
            que fica
            ao sentir vacas frias)

            : é o mundo que não o
            reconhece mais (tanto
            mudou um
            na ausência do outro)
            e o desmerece

                        (logo o poeta
                        que no esforço de sub-trair-se
                        ao mundo
                        precisou compreendê-lo
                        em demasia
                        suportando-o nos ombros
                        e apreendendo-o apenas
                        no gesto do próprio punho
                        (em suas plenas
                        mãos vazias
                        nuas
                        frias) :
                        naquilo em
                        que ele mesmo
                        se descrevi(vi)a)

            que não o enaltece
                        não o reconhece

            expulsa-o da cidade
            não o deixa ter companhia
            e tanto mais
            dele escarnece
                                   que o deixa
                                   (ao poeta)
                                   no retalho
                                   da carne viva

por isso o poeta
ao retornar
ao mundo dos vivos
                                   (não mais Pasárgada
                                   nem Arcádia
                                   e muito menos
                                               Utopia)

deve habitar
peremptoriamente
o limbo : deve
                        per
                                   (
                                               de
                                               (da)
                                               r)
                        ambular

como se andasse
num mundo morto
(ele próprio morto)
não procurando mais nada
senão o fio que a Parca
fia
            : apenas reencontrando
            um destino

                                   (coisa que
                                   no latifúndio
                                   de ar
                                               que lhe coubera
                                   nunca soubera
                                   que existia)

voltará a ter espaço
e poderá desfrutar
do tempo
                        :           somente assim
                                   terá anistia


*


AISTHESIS

e nisso
a vida
vem vindo

(perdurando
o instantâneo
tanto
de existir)

e nos trespassando


: vamos sendo
(ou deixando
de ser) nós mesmos
transformados
em poesia

(: é dessa forma
que a vida
deixa de ser
oca – casca
vazia

            apenas

para virar
substância —
coisa a ser
sentida)




Orlando Lopes (Guarapari, 1972) é professor universitário (UFES) e ativista cultural. Publicou Hardcore blues — apocalyptic songs (SPDC/UFES, 1993) e Occidentia — primeira via (Huapaya, 2007). Tem no prelo Occidentia — segunda via, a ser lançado pela editora Cousa. Mais sobre Occidentia: aqui.